Alfabetização: evidências do aprendizado da leitura e escrita – parte 2

Conheça a importância da Grafomotricidade na alfabetização e aprenda a desenvolver a habilidade de desenho e escrita da criança

Aprofundando no estudo da alfabetização, passamos a tratar dos aspectos formadores da Grafomotricidade, que, segundo Nunes (2016), trata-se da expressão gráfica da criança.

Ao contrário da fala, a escrita não é um desenvolvimento natural do ser humano, sendo, portanto, uma faculdade motora que deve ser aprendida, e, para tal, necessita de ser mediada por profissionais de Educação.

Aproveite para ler a primeira parte deste artigo, em que discutimos os aspectos formadores da rede neuronal que compõem os mecanismos da aprendizagem da leitura e da escrita.

Como ocorre esse aprendizado dentro da alfabetização?

Com o aprofundamento dos estudos em Neurociências, passamos a compreender melhor o funcionamento das estruturas e circuitos neurais responsáveis pela linguagem, processamento visual, raciocínio e memória.

Construímos o entendimento de que a aprendizagem se dá em quatro níveis interdependentes:

1) Nível sensorial: relaciona-se diretamente com nossos sentidos (visão, tato, audição, olfato e paladar). Representa as respostas instintivas e reflexas em relação aos estímulos recebidos e como eles conversam com os nossos mecanismos de recompensa.

2) Nível Perceptivo: também relaciona-se com os órgãos dos sentidos, mas em nível de processamento. A rede neural de processamento cria mecanismos que permitem obter informações sobre a posição e o deslocamento do corpo e dos elementos do meio ambiente circundante. Esse processo resulta em um modelo geral de controle motor que, uma vez refinado, se transforma em movimentos voluntários de precisão.

3) Nível Integrativo: é um processo da dinâmica da estrutura cognitiva simultâneo ao da diferenciação progressiva que consiste em eliminar diferenças aparentes, resolver inconsistências, integrar significados e fazer superordenações.

4) Nível expressivo: é a capacidade de se expressar, verbalmente ou graficamente, após desenvolver a habilidade de compreensão de conceitos e adquirir unidades significativas de experiências, proporcionando a aptidão de se comunicar com outras pessoas.

Grafomotricidade e o desenvolvimento da escrita

O processo da Grafomotricidade percorre essa rede de sistemas integrantes do complexo da linguagem, sendo necessária a estimulação adequada para cada fase descrita, pois o sucesso da expressão comunicativa será resultante da aquisição de cada uma dessas habilidades.

Nesse ponto você já deve estar criando mentalmente várias atividades para cada um dos níveis expostos, mas para te ajudar a organizar farei uma pequena lista:

Diferentes estímulos: os órgãos dos sentidos necessitam de estímulos direcionados, como riscar em superfícies diferentes, por exemplo (na areia e depois na superfície lisa com carvão ou giz , no chão seguido da parede…).

Os circuitos com deslocamentos e mudanças de direções e a dessensibilização das mãos trabalhando várias texturas diferentes farão que os receptores responsáveis pela armazenagem sensório-motora sejam ativados, gerando aprendizagem motora e satisfação com a execução do movimento.

Desenhos livres: as atividades gráficas devem respeitar o tempo de integralização da noção de corpo da criança. Recomendo que até os três anos sejam feitos apenas desenhos livres modificando sempre o objeto riscador (dedo, giz, pincel, lápis…) e o suporte a ser riscado (papel, lixa, areia, tecidos…). Naturalmente as figuras corporais aparecerão entre as Garatujas (desenhos disformes feitos pela criança), principalmente no símbolo do girino (círculo que representa a cabeça de onde surgem os membros).

Limites e contrastes: é fundamental desde sempre criar limites físicos e de contraste visual para que a criança inicie a aquisição de espaço, o que facilitará sua compreensão de ocupação e posicionamento do corpo, além do limite disponível para o movimento.

Na parte final deste artigo discutiremos as evidências de aprendizado da aquisição da escrita e da leitura, bem como os apontamentos de quais métodos são os mais eficientes para o aprendizado da criança.

Autor:

Sérgio de Carvalho
Educador físico
Pós-graduado em Neuropsicopedagogia (UCAM) | Licenciatura plena em Educação Física (UFJF) | Professor de Pós-graduação em Psicopedagogia e Gestão Pedagógica | Diretor da Clínica MomentuM/Desenvolvimento Integral e psicomotricidade.