Alfabetização (parte 3): qual é o método mais eficiente para alfabetizar?

Conheça os métodos de ensino utilizados na alfabetização e saiba qual é a eficiência de cada um deles no processo de aprendizado

 

Na última parte de nossa discussão sobre a alfabetização, uma dúvida paira sobre a educação brasileira. Será que o método adotado para a alfabetização não alfabetiza? A afirmação positiva é feita pelos maiores especialistas na área, fundamentada em estudos científicos.

Lembre-se de também conferir a primeira e segunda parte do nosso especial sobre alfabetização, em que falamos respectivamente sobre as evidências dessa aprendizagem e a importância da grafomotricidade.

 

Métodos de alfabetização

O neurocientista Stanislas Dehaene estuda há 20 anos o impacto dos números e das letras no cérebro humano. Ele afirma que o método mais eficaz de alfabetização é o que chamamos fônico. E o pesquisador francês parte do ensino das letras e da correspondência fonética de cada uma delas, como se fazia antigamente. Estudos mostraram que a criança alfabetizada por esse método aprende a ler de forma mais rápida e eficiente com excelente compreensão de texto.

Os métodos de ensino que seguem o conceito de educação construtivista, por outro lado, mostraram-se ineficazes. Nesse método, primeiro se deve aprender o significado da palavra e, numa próxima etapa, as letras que a compõem.

O resultado é catastrófico: a criança que deveria ser alfabetizada em menos de um ano pelo fônico vai precisar de mais três para aprender a escrever e ler de forma rudimentar e sem boa compreensão do texto. Elas estão terminando seu ciclo sem se alfabetizar e entrarão no ensino médio, na rede pública, sem ter compreensão do que leem. Alguém contesta essa realidade nas escolas públicas do país?

 

E por que o método construtivista é ineficaz?

O neurocientista explica que se verificou em pesquisas com pessoas de diferentes idiomas que o aprendizado da linguagem se dá a partir da identificação da letra e do som correspondente. Esse processo ocorre no lado esquerdo do cérebro. No método construtivista, a criança primeiro aprende o sentido da palavra, sem necessariamente conhecer as letras. Nesse caso, o lado direito do cérebro é ativado. Mas a decodificação dos símbolos terá que chegar ao lado esquerdo para que a leitura seja concluída. Para Dehaene é um processo mais demorado, que segue na via contrária do funcionamento do cérebro.

 

Num certo sentido, podemos dizer que esse método ensina o lado errado, primeiro. Porém, as crianças que aprendem a ler processando primeiro o lado esquerdo do cérebro estabelecem relações imediatas entre letras e seus sons, leem com mais facilidade e entendem mais rapidamente o significado do que estão lendo. (Dehaene,2015).

 

Doutor em desenvolvimento da cognição e psicolinguística, o português José Morais defende o envolvimento da neurociência na alfabetização para reformar os pensamentos pedagógicos. Ele diz que a psicologia cognitiva mostra que a leitura de textos não é uma elaboração contínua de hipóteses sobre as palavras, mas sim um processo automático, não intencional e muito complexo de processamento das letras e das unidades da estrutura fono-ortográfica de cada palavra, que conduz ao seu reconhecimento ou à sua identificação.

 

Como é essa relação entre a atividade cerebral e a leitura?

Em matéria de O Globo, em 2014, José Morais diz:

 

A leitura visual não se faz nos olhos, mas no cérebro — a retina, embriologicamente, faz parte do cérebro. Não há leitura sem uma atividade cerebral que mobiliza vastas regiões do cérebro e, em primeiro lugar, a chamada Área da Forma Visual das Palavras. Ela se situa no hemisfério esquerdo do cérebro e não é ativada por palavras escritas nos indivíduos analfabetos. Nos alfabetizados ela é ativada fortemente, e o seu grau de ativação aumenta à medida que a criança aprende a ler. No leitor competente, a leitura de um texto baseia-se no reconhecimento ou na identificação das palavras escritas sucessivamente. À medida que elas são processadas, essa informação é enviada para outras áreas cerebrais que se ocupam do processamento da língua, independentemente da modalidade perceptiva (em particular, o processamento semântico e sintáxico), assim como da codificação da informação na memória de trabalho verbal e do acesso à memória a longo prazo. Tudo isso permite a compreensão do texto e a sua interpretação e avaliação. (MORAIS,2014)

 

Transitando entre o que a neurociência aponta como modelo eficiente para o aprendizado e o necessário contexto social de nossas escolas, aponto algumas sugestões:

 

1) A escola precisa ser organizada para a aprendizagem. Um ambiente atrativo facilita o processo da leitura.

2) O docente tem que observar em que nível de progressão a criança se encontra. Uma avaliação permanente por parte do professor e a autoavaliação do aluno são essenciais para esse processo.

3) É preciso dar importância ao ensino estruturado, em que é feita uma sequência que respeita a lógica de como o cérebro aprende: começando do simples para o complexo, ensinando uma letra de cada vez e iniciando pelas mais regulares na sua relação com os sons, as mais fáceis de serem pronunciadas separadamente e pelas mais frequentes.

4) É necessário valorizar os erros e a recompensa, o reconhecimento pelos avanços. “Os erros são mais úteis para a aprendizagem do que os acertos, mas só se a criança receber logo o feedback da correção. Ela não deve ser castigada, mas deve ser corrigida e reconhecida, elogiada por seus avanços”.

 

Exercícios abundantes e diversificados, adequados ao nível de progressos da criança, são outros elementos fundamentais para o processo de fixação, pois, se não diversificarmos, as crianças memorizam os exercícios sem aprender a decodificação que lhes permitirá ler qualquer palavra.

 

Autor:

Sérgio de Carvalho
Educador físico
Pós-graduado em Neuropsicopedagogia (UCAM) | Licenciatura plena em Educação Física (UFJF) | Professor de Pós-graduação em Psicopedagogia e Gestão Pedagógica | Diretor da Clínica MomentuM/Desenvolvimento Integral e psicomotricidade.