Como prescrever exercícios para idosos?

Aprenda os benefícios da atividade física para idosos e como deve ser o acompanhamento dessa população

Atividades como dança, natação e ginástica sempre foram minhas paixões. Iniciei minha graduação aos 17 anos, e no desenvolver do meu curso de Educação Física na Universidade Federal de Juiz de Fora, fui descobrindo o real significado dessa profissão. Muito maior do que o senso comum reconhece, vi que a Educação Física e o campo de trabalho que ela proporciona é ainda mais amplo do que imaginava.

 

Para além das escolas e academias, em 2008 tive a oportunidade de iniciar meu envolvimento com o tema envelhecimento em um estágio no Centro de Convivência do Idoso Dona Itália Franco, gerenciado pela Prefeitura da cidade de Juiz de Fora. O local recebia, na ocasião, a maior concentração de idosos para diversas atividades, dentre elas as que eram ofertadas pela equipe de educadores físicos: ginástica localizada, ginástica localizada nos bairros, dança de salão e jogos da terceira idade.

 

Foi através dessa primeira experiência que o tema envelhecimento e eu nos encontramos realmente. E pude perceber minha afinidade e interesse em trabalhar esse campo dentro da Educação Física. Depois disso, não consegui largar mais.

 

Por gostar tanto desse tema e saber da sua importância na atualidade, neste texto vou responder as principais questões que envolvem o exercício físico na terceira idade e o que o profissional de Educação Física pode fazer para tornar a vida dessa população cada vez mais saudável.

 

 

Quais são os maiores benefícios da atividade física para idosos?

 

Atualmente, percebemos o quanto que o exercício regular vem sendo reconhecido como essencial. Já se sabia, por exemplo, da importância da atividade física durante a infância. Apesar de várias discussões acadêmicas a respeito da Educação Física Escolar, hoje se tornou um cenário corriqueiro ver as famílias direcionando seus filhos à prática do esporte desde novos.

 

Durante a adolescência infelizmente esses números caem, pois é uma época em que o jovem está dedicado aos estudos, culminando na graduação ou na entrada no mercado de trabalho.

 

pequena-jessica-exercicios-idosos-1Na fase adulta, os cuidados com a família e a dedicação ao trabalho com carga cada vez maior de envolvimento impede muitos de ter como rotina a prática de exercícios físicos. Quando chegamos ao envelhecimento, normalmente considerado pelo marco etário de 60 anos em países como o Brasil, vemos o distanciamento dessas pessoas às práticas regulares de atividade física.

 

Com o passar dos anos, temos alterações funcionais e estruturais que podem comprometer o desenvolvimento e o dia a dia dos indivíduos que estão envelhecendo. As principais seriam alterações sensoriais, as doenças ósseas, cardiovasculares e o diabetes (Ruwer, Rossi&Simon, 2005). Vale ressaltar também que o processo de envelhecimento não é sinônimo de doença.

 

No processo de envelhecimento, temos duas distinções: a senescência, que seria o “somatório de alterações orgânicas, funcionais e psicológicas do envelhecimento normal” e a senilidade, “afecções que frequentemente acometem a pessoa idosa” (Papaléo Netto, 2006, p. 10). Os exercícios nos dois casos vêm como atividades que podem prevenir a ocorrência do aumento de alterações funcionais e estruturais do envelhecimento normal, como perda da mobilidade articular, diminuição da força, mas também nas condições patológicas como a obesidade, hipertensão, diabetes, dentre outras. Além disso, oferecem benefícios sociais relevantes como o aumento das relações sociais, diminuindo o risco de depressão, ansiedade, tristeza pela solidão e também proporcionando a manutenção da autoestima e bem-estar.

 

 

Por que essa prática ainda não é frequente na terceira idade?

 

São inúmeros os motivos pelos quais idosos não praticam exercícios físicos regulares, mesmo esses sendo um dos elementos decisivos para a melhora da aptidão física, bem-estar e da aquisição e manutenção da saúde. Pesquisas apontam que somente 17% dos idosos acima de 60 anos praticam alguma atividade física (Feliciano et AL, 2004).

 

Dentre os motivos da não procura ou da não permanência em atividades físicas pelos idosos, estariam: o medo da queda ou da lesão, o medo de ser vítima de violência ao exercitar-se em espaços abertos, a comum sensação de cansaço, a presença de morbidades, limitações físicas e dor, além da falta de companhia e de tempo para exercitar-se (Cassou, Fermino, Santos, Rodriguez-Añez, &Reis, 2008; Sallinen et al., 2009). No entanto, muito se caminhou na criação de métodos específicos de orientação ao exercício físico para essa população.

 

 

Como proporcionar o melhor treinamento possível para idosos?

 

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Como acontece com toda orientação ao exercício físico, não existe padrão no caso de atividades para os idosos. A cada dia a medicina esportiva evolui nas indicações e surgem novos estudos, além das capacitações mais variadas. Ter conhecimento aprofundado sobre o público é um bom começo. Em geral as graduações não ofertam esses conhecimentos dentro da sua grade comum. E quando ofertam, estão em conjunto de diversos outros conhecimentos, não reconhecendo assim a complexidade do tema.

 

Minha sugestão é que o profissional que deseja trabalhar com esse público desenvolva estudos específicos sobre o tema, através de cursos de capacitação e especializações, como é o caso da pós-graduação da FacRedentor no IESPE de Treinamento Personalizado para Grupos Especiais. Através de estudos aprofundados, o profissional será capaz de desenvolver o que entendo como primordial para o início das atividades: um bom protocolo de avaliação. Esse protocolo deve reunir informações importantes não só físicas, mas psicológicas/motivacionais para que, com base nelas, seja desenvolvido o melhor planejamento personalizado de exercícios.

 

 

Existe um limite de idade para a atividade física?

 

pequena-jessica-exercicios-idosos-3Não há limite de idade para a prática de exercícios. O que existem são limitações advindas de processos avançados de doenças em que o mais indicado pode ser o acompanhamento fisioterápico. Mas em aspectos gerais, mesmo com a presença de algum tipo de cardiopatia, diabetes, hipertensão, câncer, depressão, problemas auditivos ou visuais, os exercícios podem e devem ser indicados como coadjuvantes dos tratamentos recebidos.

 

Um planejamento de exercícios pode incluir desde as atividades mais comuns como caminhadas orientadas, alongamentos, exercícios de força, mas também pode ser personalizado, se tornando mais eficaz para esses indivíduos que estão chegando ou chegaram à terceira idade. Assim, podemos incluir exercícios de agilidade, reação, equilíbrio, coordenação motora geral, coordenação motora fina, além de exercícios para memória.

 

 

Quais são os cuidados necessários no atendimento a esse público?

 

Sem dúvida, atuar com qualquer pessoa que tenha uma doença associada ou não, ou que pode vir a ter emergências, como é o caso da prática de exercícios físicos, os conhecimentos sobre primeiros socorros são essenciais. Mesmo que o profissional tenha toda a cautela e faça um planejamento adequado, pode vir a ocorrer algo inesperado. Ele sempre deve estar preparado.

 

pequena-jessica-exercicios-idosos-4Alguns cuidados especiais, no entanto, são necessários ao trabalhar com essa faixa etária: ensinar a entrar e sair de aparelhos/exercícios, dar informações detalhadas e calmas sobre a execução dos movimentos, ensinar a se levantar e pegar objetos do chão, evitando deixar objetos espalhados no percurso.  O ambiente também precisa ter acessibilidade completa, orientação para utilização de sapatos e roupas adequados, iluminação, sonorização e climatização adequados, dentre outros itens.

 

Algo também importante seria a desconstrução do paradigma de que o “idoso vai quebrar”, que precisa de ajuda para tudo e que é um “coitado” que precisa de atenção. Analisando-o individualmente, as formas de tratamento também precisam ser individualizadas. As pessoas não envelhecem do mesmo jeito.

 

 

O que podemos concluir?

 

Como foi dito anteriormente aqui no Blog do IESPE no texto Gerontologia é um assunto só para velhos? de José Anísio Pitico, a população idosa é a que mais está crescendo no Brasil e no mundo. E se tornar a vida deles mais justa e saudável é cuidar do nosso futuro, posso dizer que por todos os locais onde passei tenho exemplos de idosos que começaram a ver suas vidas de outra forma quando se permitiram exercitar. São as mais diversas alterações.

 

pequena-jessica-exercicios-idosos-5Temos senhoras que passaram a vida toda cuidando de sua família e, ao chegarem à terceira idade, o envelhecimento veio acompanhado da solidão e de um quadro depressivo. Através da prática regular de exercícios físicos, elas conseguiram contornar a depressão, construindo um novo círculo de amizades, novas relações que significaram novamente sua vida para além do núcleo familiar.

 

As questões apontadas mostram que essa não é só uma prática positiva, mas também necessária para que o país tenha idosos mais saudáveis e com maior qualidade de vida. Pessoas que já não acreditavam na possibilidade de retorno às atividades básicas do dia a dia como se trocar, cuidar da comida e molhar as plantas, passaram, através da continuidade do exercício bem orientado, a ter mais confiança na realização dessas atividades, retomando sua autonomia.

 

 

 

 

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Referências:

Ruwer SL, Rossi AG, Simon LF. Equilíbrio no idoso. RevBrasOtorrinolaringol 2005;71(3):298-303.)

 

Papaléo Netto, M. (2006). O estudo da velhice: histórico, definições do campo e termos básicos. In E.V. Freitas, L. Py, F.A.X. Cançado, J. Doll& M.L. Gorzoni, Tratado de Geriatria e Gerontologia (2ª. ed.). Rio de Janeiro: Guanabara Koogan.

Sallinen, J., Leinonen, R., Hirvensalo, M., Lyyra, T.M., Heikkinen, E., &Rantanen, T. (2009).Perceived constraints on physical exercise among obese and non-obese older people.Preventive Medicine,49, 506-510.

 

Cassou, A.C.N., Fermino, R.C., Santos, M.S., Rodriguez-Añez, C.R., &Reis, R.S. (2008). Barreiras para a atividade física em idosos: uma análise por grupos focais. Revista da Educação Física,19, 353-360.

 

Feliciano, A.B., Moraes, A.S., &Freitas, I.C.M. (2004). O perfil do idoso de baixa renda no Município de São Carlos, São Paulo, Brasil: um estudo epidemiológico. Cadernos de Saúde Pública,20(6), 1575-1585.

 

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