Quais devem ser os cuidados com a pele do recém-nascido prematuro?

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A pele do recém-nascido prematuro é uma das maiores preocupações dos enfermeiros intensivistas e o seu cuidado um dos maiores obstáculos encontrados por esses profissionais. Por isso a necessidade de estabelecer protocolos e implementar práticas que buscam manter a integridade da pele do RNPT (Recém-nascido prematuro).

De acordo com a SOBEP (Sociedade Brasileira de Enfermeiros Pediatras), “A Organização Mundial da Saúde (OMS) define como pré-termo toda criança nascida antes de 37 semanas”. A prematuridade em si constitui um problema de saúde pública, destacando que suas complicações representam a principal causa de mortalidade infantil. Nesse contexto, a sepse neonatal é caracterizada como a terceira principal causa de óbito nos primeiros 28 dias de vida.

Importância da pele para o prematuro

Cuidados com a pele do recém-nascido prematuro
A pele do RNPT é mais sensível e propensa a riscos

Considerando a complexidade de cuidados com a pele do recém-nascido prematuro, devo destacar a importância dos cuidados de enfermagem. A pele é o maior órgão do corpo humano e dentre as suas funções no recém-nascido destacam-se:

  • Proteção
  • Sensibilidade
  • Termorregulação (barreira de proteção que visa minimizar perda de calor, contribuindo para que o neonato se adapte ao meio externo)
  • Excreção
  • Metabolismo
  • Equilíbrio eletrolítico (impedindo a absorção de substâncias tóxicas, além da prevenção de infecções)

Devido às poucas camadas de estrato córneo (camada mais externa da pele, responsável pelas barreiras contra lesões e infecções), os neonatos prematuros estariam mais propensos aos riscos de infecções e instabilidades térmicas e hemodinâmicas. Isso acontece por causa de sua imaturidade tegumentar, ou seja, suas particularidades funcionais e sua superfície corpórea ainda não se encontram completamente formadas, reduzindo assim a sua função protetora. Esse fator desperta maior atenção às ações de enfermagem que devem ser implementadas no cenário hospitalar, adotando medidas que otimizem a biossegurança desses pacientes.

Procedimentos e seus riscos

Alguns estudos apontam que 80% dos RNPT apresentam algum tipo de lesão de pele até completarem um mês de vida, aumentando a preocupação do profissional de enfermagem acerca dos cuidados que devem ser adotados para redução de tais índices. Para contornar essa realidade, ele deve investir em técnicas que possibilitem a redução dos riscos de infecções, garantindo a sobrevida dos neonatos.

Cuidados com a pele do recém-nascido prematuro
Lesões de pele são frequentes em RNPTs na UTI Neonatal

Ao ser admitido esse neonato sofre vários tipos de intervenções que podem garantir sua sobrevida, mas essa variedade de procedimentos, uma vez mal direcionadas, podem contribuir para o aumento de lesões.

Assim, as práticas adotadas pela enfermagem devem ser dotadas de conhecimentos técnicos e práticos de acordo com as particularidades do RN, a fim de estabelecer um ideal controle das taxas de infecções. Daí a necessidade de um estudo que busque um melhor esclarecimento sobre as práticas clínicas adotadas em relação aos cuidados com a pele do recém-nascido prematuro. Da mesma forma, é preciso conhecer os protocolos adotados pelas instituições hospitalares, padronizando e otimizando a assistência de enfermagem.

O recém-nascido prematuro admitido em uma Unidade de Terapia Intensiva Neonatal possui vários riscos de lesões durante seu processo de admissão.

  • Procedimentos invasivos: podem causar ruptura de pele, além de exposições ambientais, fixação e remoção de adesivos,
  • Banhos e substâncias: podem causar algum tipo de abrasão química, além de lesões físicas, como, por exemplo, lesão por pressão.

Cada um desses expoentes vem despertando a importância do enfermeiro frente a essa demanda que assume a responsabilidade dos cuidados implementados para a manutenção do neonato.

Basear seus conhecimentos em um aporte científico que auxilia nas melhores condutas a serem estabelecidas cria uma melhor abordagem , garantindo uma estratégia de cuidados e desfazendo a lacuna entre seus conhecimentos práticos e empíricos.

Cuidados com a pele do recém-nascido prematuro

O cuidado de enfermagem com a pele do recém-nascido prematuro é prioridade para a manutenção, recuperação e prevenção de sua integridade, portanto, devo ressaltar que ele deverá ser dinâmico, contínuo, acolhedor e integral para que você possa conhecer as características da pele do RN.

Tais cuidados devem ser instituídos logo após o nascimento, ou seja, nas primeiras horas de vida, para que tais esforços sejam um facilitador para a redução de riscos de lesões.

Aspectos relevantes para o cuidado com a pele:

1- Banho: considere as melhores evidências para definir de que forma será realizado o banho em RNPT, obedecendo um consenso sobre os riscos e benefícios quanto ao intervalo e produtos que deverão ser utilizados. Embora apresente um caráter higiênico, para fins de cuidados com a pele, o banho deverá obedecer a protocolos que forneçam uma melhor segurança ao RNPT, favorecendo a redução de infecções cutâneas. Recomenda-se que o banho seja realizado a cada 4 dias, evitando os dias intercalados. Além disso, o enfermeiro deve dar preferência à utilização de sabão com PH neutro. Para RN abaixo de 32 semanas, o recomendado será somente o uso de água morna com uso de bolas de algodão.

Cuidados com a pele do recém-nascido prematuro
Enfermeiro(a) deve ter cuidado na aplicação de produtos e realização de procedimentos

2- Hiperemia em área de fralda: essa é uma das principais falhas do serviço da enfermagem, porém poucos estudos apontam tais erros. Utiliza-se uma barreira de óxido de zinco para manter a integridade da pele do recém-nascido. Em casos de prematuridade, deverá ser realizada uma avaliação das condições da pele do RN e revisão da conduta aplicada.

3- Produtos danosos: não utilize produtos à base de solução iodada para antissepsia, devido aos riscos de hipotireoidismo transitório.

4- Aplicação de álcool: evite áreas extensas ao utilizar álcool à 70% ou clorexidina alcoólica, pois existem riscos de queimaduras, principalmente em prematuros extremos.

5- Clorexidina: alguns estudos apontam que a utilização de clorexidina à 0,5% não reduz as taxas de sepse tardia. Eles aconselham o uso de clorexidina à 0,015% para o preparo da pele do recém-nascido prematuro.

6- Umidificação em incubadora: otimiza a termorregulação e integridade cutânea, favorecendo a redução da perda de água transepidérmica, bem como o equilíbrio de fluídos e eletrólitos. Quanto ao tempo de duração da umidificação, ainda existe uma carência quanto a variação da necessidade prolongada, sendo implantados os protocolos baseados em evidências sobre o assunto. Por isso, a avaliação do enfermeiro é muito importante frente a esse cuidado.

Enfermagem em Cuidados Intensivos (UTI) Adulto e Neonatal

7- Membrana semipermeável: esse recurso favorece a estabilidade clínica.

8- Rodízios de dispositivos: requer uma atenção redobrada quanto a manutenção da integridade da pele, consistindo um dos principais focos do trabalho da enfermagem. Alguns estudos recomendam que o rodízio de oximetria seja estabelecido entre 4 a 6 horas, considerando a estabilidade clínica do prematuro. Deve ser implementado com firmeza, porém de forma que possibilite um conforto ao RN, não comprometendo sua movimentação e permitindo que haja circulação local.

9- Cateter percutâneo: possibilita a redução dos números de punções periféricas, favorecendo a redução do estresse, proporcionando um melhor desenvolvimento do SNC (Sistema Nervoso Central), reduzindo os estímulos dolorosos e reservando o uso de dispositivos venosos periféricos para casos especiais. O curativo deverá obedecer aos critérios estabelecidos pelo SCIH (Serviço de Controle de Infecções Hospitalares) de cada Instituição, visto que demanda cuidados criteriosos, tanto no processo de inserção quanto na manutenção (cuidados diários e observação rigorosa dos fluidos infundidos e sítio de inserção). Dê preferência para o uso de curativos transparentes.

Cuidados com a pele do recém-nascido prematuro

10- Cuidados de extravasamento vascular: exige uma observação rigorosa, pois provoca inicialmente um aumento do volume local, pela infusão do líquido para o tecido, seguido por eritema e, algumas vezes, bolhas e dor. Observe condições de acesso de modo frequente e adote protocolos de administração de medicações.

11- Cordão umbilical: de acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria, em 2004 a Organização Mundial da Saúde organizou um guia de cuidados com o cordão umbilical que preconiza que ele seja mantido seco e limpo, o que auxiliaria no processo de mumificação. Além disso, a OMS desaconselha a colocação de outros produtos.

12- Adesivos: O uso indiscriminado de adesivos aumenta o risco de lesões cutâneas, culminando assim na possibilidade de infecções.

13- Mudanças de decúbito: devem ser avaliadas de acordo com estado clínico e condições fisiológicas do RN, possibilitando a redução de lesões por pressão. Dê preferência por manter o RN aninhado, simulando um útero materno e alinhando seu desenvolvimento extrauterino.

14- Hidrocolóide: é um dos insumos mais citados em estudos quando o assunto é a proteção de septo nasal em RNPT que fazem uso de CPAP nasal. O seu uso evita possíveis isquemias, uma vez que a pronga poderá exercer uma pressão sobre o septo. Portanto, o seu tamanho deverá ser de acordo com o tamanho da narina do recém-nascido, possibilitando assim uma melhor ventilação.

O papel do enfermeiro

Podemos exaltar que a assistência do enfermeiro intensivista deve tomar como base um trabalho árduo, contínuo e técnico, com aspectos de interdisciplinaridade com profissionais altamente qualificados. A visão do enfermeiro tende a se relacionar com a autonomia do seu trabalho, ampliando projetos de ações voltadas a esses pacientes em específico, construindo um modelo de assistência humanizado e inserindo a família nesse critério de avaliação. Tais conhecimentos devem se basear nas evidências de suas práticas, intensificando a necessidade de procedimentos que reduzam os riscos que levam esse recém-nascido a exposições desnecessárias e que provocam um agravo de todo o seu sistema.

Cuidados com a pele do recém-nascido prematuro
Os cuidados da Enfermagem são essenciais para a recuperação do RNPT

Proteger a pele e manter sua integridade otimiza e organiza o plano assistencial, reduzindo o estresse e o tempo de internação desses pacientes, favorecendo o seu prognóstico. Contudo, ainda existem poucos estudos nacionais que investigam de forma metodológica os cuidados sobre o assunto em questão, podendo gerar divergências nas assistências das unidades hospitalares. Outro resultado é a ausência de protocolos de cuidados com a pele e ações padronizadas, limitando os conhecimentos e intensificando os cuidados empíricos junto à equipe multiprofissional.

Com isso, espera-se adequar os cuidados compartilhados com os aplicados nas práticas diárias, intensificando os valores na construção do saber acerca dos problemas. Assim, consolidamos as tomadas de decisão sobre os cuidados com a pele do recém-nascido prematuro e, com isso, reconhecemos a importância do serviço de enfermagem.

Referências:

  1. Araújo BBM; Esteves SX; Cardoso ES et al. A Enfermagem e os Cuidados com a pele do Prematuro. R. pesq.: cuid. fundam. online 2012. jul./set. 4(3):2679-91.
  2. Aredes, N.D, Santos, Santos, R.C.A, Fonseca, L.M.M. Cuidados com a pele do recém-nascido prematuro: revisão integrativa. Rev. Eletr. Enf. [Internet]. 2017. Disponível em: http://doi.org/10.5216/ree.v19.43331.
  3. Fontenele FC; Pagliuca LMF; Cardoso MVLML. Cuidados com a pele do recém-nascido: análise de conceito. Esc. Anna Nery vol.16 no.3 Rio de Janeiro Sept. 2012.
  4. Tamez, Raquel Nascimento, Pantoja, Maria Jones Silva. Assistência ao recém-nascido de alto risco. Enfermagem na UTI Neonatal. Rio de Janeiro, Guanabara Koogan. 2013.
  5. Ursi ES, Gavão CM. Prevenção de lesões de pele no perioperatório: revisão integrativa da literatura. Rev Lat Am Enfermagem [Internet]. 2006 [acesso em: 31 dez. 2017];14(1):124-31. Disponível em: http://doi.org/10.1590/S010411692006000100017.

Autor:

Ricardo Medeiros
Enfermeiro
Enfermeiro Graduado pela Universidade do Grande Rio/RJ; Especialista em Assistência Hospitalar ao Neonato pela Faculdade Lucas Machado em associação com a Secretária de Estado de Saúde de Minas Gerais/BH; Professor dos cursos de Pós-graduação e Extensão do IESPE; Enfermeiro Assistencialista da Maternidade e Unidade de Neonatologia da SCM/JF desde 2001; Habilitado em práticas de inserção de cateter percutâneo e cateterismo umbilical; BLS – Basic Life Suport; Curso de reanimação neonatal para auxiliares de reanimação pela Sociedade Brasileira de Pediatria; Participante do I Simpósio Internacional de Qualificação da Assistência Perinatal SES/MG.
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